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5.25.2015

O Inferno de Rauschenberg


Robert Rauschenberg ( 1925 - 2008)
O Centro Cultural Correios, apresenta de 13 de maio até 12 de julho a expsoição  “Robert Rauschenberg - O Inferno de Dante”. Com curadoria de Claudia Lopes e Simone Ajzental. A exposição nos apresenta 34 litogravuras do artista texano Robert Rauschenberg que foram produzidas com base nos 34 cantos (poemas) que compõem a primeira parte do livro “A Divina Comédia”, do escritor italiano Dante Aligheri, intitulada “O Inferno”.
O Inferno é essencialmente a alegoria de inferno existente na Idade Média, assim sendo os  mais variados pintores criaram ilustrações sobre esta obra, se destacando Botticelli, Gustave Doré e Dalí.
Robert Rauschenberg foi um pintor americano e artista gráfico cujas obras precoce antecipou o pop art movimento. Teve grande influência nas artes visuais, já que seu nome é atrelado a vários momentos importantes para a arte da segunda metade do século XX. Entre os pontos importantes de sua carreira podemos destacar:

  • Diagnosticado com Dislexia.
  • Aos 16 anos, Rauschenberg foi admitido na Universidade do Texas , onde ele começou a estudar farmácia.
  • Posteriormente, estudou no Kansas City Art Institute e da Académie Julian, em Paris.
  • Josef Albers , um dos fundadores da Bauhaus , tornou-se instrutor de pintura de Rauschenberg no Black Mountain.
  • Rauschenberg casou com Susan Weil em 1950. Seu único filho, Christopher, nasceu 16 de julho de 1951. Eles se divorciaram em 1953. De acordo com compositor Morton Feldman , após o fim de seu casamento, Rauschenberg tinha  relacionamentos romântico com colegas artistas como Cy Twombly e Jasper Johns . Segundo boatos esses relacionamentos começaram ainda em sua época de casado.
  • A abordagem de Rauschenberg foi chamado às vezes " Neo dadaísta ", um rótulo que ele dividia com o pintor Jasper Johns.
  • Rauschenberg e Johns são frequentemente citados como precursores importantes do americano Pop Art .
  • Em 1966, Billy Klüver e Rauschenberg lançou oficialmente Experimentos em Arte e Tecnologia (EAT), uma organização sem fins lucrativos criada para promover colaborações entre artistas e engenheiros.
  • Em 1969, a NASA convidou Rauschenberg para testemunhar o lançamento da Apollo 11 .
  • Fez capas para Life e Tropic, importantes revistas americanas.
  • Em 1983, ele ganhou um Grammy pela capa de Talking Head's álbum de Speaking in Tongues.
  • Em 1986 Rauschenberg foi encomendado pela BMW para sexta edição do famoso BMW Art Car Project.
  • Rauschenberg teve sua primeira retrospectiva da carreira, organizada pelo Museu Judaico , Nova York, em 1963, e em 1964 ele foi o primeiro artista americano a vencer o Grande Premio na Bienal de Veneza.
  • Em 1990, Rauschenberg criou a Fundação Robert Rauschenberg (RRF) para promover a conscientização das causas que ele se preocupava, como a paz mundial, o meio ambiente e questões humanitárias.
  • Em 2010 Studio Painting (1960-1961 ), originalmente estimados entre $ 6 e $ 9 milhões dólares, foi comprado a partir da coleção de Michael Crichton por US $ 11 milhões na Christie's, Nova Iorque.
  • No início de 1970, Rauschenberg sem sucesso pressionou o Congresso dos EUA a aprovar uma lei que iria compensar os artistas quando seu trabalho é revendido.
  • O artista mais tarde apoiou um projeto de lei estadual da Califórnia que se tornou lei, a Califórnia revenda Royalty Act de 1976.  Rauschenberg assumiu sua luta após o barão táxi Robert Scull vender parte de sua coleção de arte em um leilão de 1973, incluindo uma pintura que ele tinha originalmente vendidos para Scull por $ 900 dólares, mas trouxe $ 85.000 dólares em um leilão na Sotheby Parke Bernet, New York.
 

Jasper Johns talvez tenha sido um dos mais importantes entre
os pioneiros da pop art nos Estados Unidos.
Esses são apenas alguns motivos para prestigiarmos a exposição de tal artista em nossa cidade. A exposição é ambientada ao som de John Cage ( 1912  —  1992) que foi um compositor, teórico musical e admirado anarquista e artista dos Estados Unidos. Cage foi um pioneiro da música aleatória, da música eletroacústica, e do uso de instrumentos não convencionais, bem como do uso não convencional de instrumentos convencionais, sendo considerado uma das figuras chave nas vanguardas artísticas do pós-guerra.
O espaço ainda nos apresenta enigmáticos sacos/esculturas, onde é possível vislumbrar os “fardos” do peso da jornada. Isso nos oferece uma reflexão sobre o fardo e peso do pecado na nossa mentalidade cristã. O inferno encarado de frente pelas representações de  Rauschenberg nos direciona ao questionamento da tradição e da punição cristã.  Literatura, Música, Litogravura se cruzam em direção a uma imersão na busca de Beatriz.
Vale ainda lembrar o episódio narrado a seguir:
Robert Rauschenberg's "Canto XIV," 1959.
Robert Rauschenberg, em Spring Training (1965), alugou trinta tartarugas para soltá-las sobre um palco escuro, com lanternas presas nos cascos. Enquanto as tartarugas emitiam luzes em direções aleatórias, o artista perambulava entre elas vestindo calças de jóquei. No final, sobre pernas-de-pau, Rauschenberg jogou água em um balde de gelo seco preso a sua cintura, levantando nuvens de vapor ao seu redor. Ao terminar o happening, o artista afirmou: "As tartarugas foram verdadeiras artistas, não foi?".
Essa espécie de “”retrospectiva” visa apenas ressaltar a importância do artista, discorrendo sobre suas contribuições às artes visuais. Para terminar esta série o artista se isolou em uma ilha no outono de 1960. Em dezembro do mesmo ano a série foi exposta na Leo Castelli Gallery, em Nova York. Três anos depois é adquirida pelo Museum of Modern Art - MoMA, de Nova York, com recursos de um colecionador não identificado. Durante a segunda metade dos anos 60 ela circula por numerosos museus dos Estados Unidos e Europa.


Exposição: “Robert Rauschenberg - O Inferno de Dante”
Abertura: 13 de maio, às 12h
Visitação: de 14 de maio a 12 de julho de 2015
De terça-feira a domingo, das 12h às 19h – Grátis/Livre (acesso para pessoas com deficiência)
Local: Centro Cultural Correios - Rua Visconde de Itaboraí, 20 - Centro - Rio de Janeiro|RJ
Telefone: (21)2253-1580 (Recepção)
Curadoria: Claudia Lopes e Simone Ajzental. 
Patrocínio: Correios


PS: Segue as outras representações clássicas do inferno.

Sandro Botticelli - La Carte de l'Enfer.
Gustave Doré's, Divine Comedy (1861–1868);
 Dante perdido, Canto 1 do Inferno. 
 Salvador Dali, Hell, Canto 34.

5.16.2015

Wölffin, Conceitos e Arte.

Heirich Wölfflin (1864 - 1945) 
Heirich Wölfflin foi um escritor, filósofo, crítico e historiador da arte suíço. Sua formação se deu em Basileia, Munique e Berlim. Em Basileia foi aluno e discípulo de Jakob Burckhardt. Wölfflin foi um dos mais influentes historiadores da arte do século XX. Autor de livros consagrados, tais como publicados no Brasil:
A Arte Clássica. São Paulo: Martins Fontes, 1990.
Foi seu propósito dar relevo ao conteúdo artístico do classicismo italiano. A publicação da obra, em 1899, trouxe uma nova exigência de rigor metodológico e provocou a transformação dos estudos sobre a arte.
Conceitos Fundamentais da História da Arte.  São Paulo: Martins Editora, 2001.  (Publicado originalmente em 1915)
Com a publicação do livro, o autor conclui um trabalho de vários anos, inúmeras vezes recomeçado. Os pensamentos e reflexões esboçados cerca de trinta anos antes encontraram sua forma definitiva nesta obra amadurecida, verdadeiramente clássica. Teve início, então, prolongando-se através das décadas, o efeito direto das idéias de Wölfflin nas ciências e na opinião pública em geral. Os Conceitos Fundamentais influenciaram e determinaram decisivamente as ciências do espírito e toda a atividade artística.
Renascença e Barroco. Cidade (?): Editora Perspectiva, 2012.
Este livro trata-se de uma análise crítica que busca apreender a essência do processo estilístico que se operou naquele contexto. E os resultados obtidos por H. Wölfflin em Renascença e Barroco foram de tal ordem que não só se tornaram uma referência bibliográfica indispensável, como geraram conseqüências teóricas que estão na raiz de toda a discussão moderna sobre a estética e os fundamentos da arte renascentista e barroca. 
Proponho um exercício: As imagens que ilustram esse post devem ser observadas cuidadosamente, e após o fim da leitura nos comprometemos a voltar e observar novamente as imagens, mas nesse segundo olhar buscaremos observar as imagens buscando a presença dos pares conceituais apresentados. 
Uma de suas maiores obras é Conceitos Fundamentais da História da Arte. Ele inicia o livro tratando sobre a origem do “estilo”, e com base nisso ele vai elencando o que seria então o “estilo”, a “maneira” do artista. Simplificando o termo seria o substrato que se revela na obra conforme uma regra generalizada. Existiram então não apenas um estilo ligado a um movimento, época ou país e sim uma interposição de estilos, todos presentes na mesma obra.
Rubens: As consequências da guerra, 1637-38. Palazzo Pitti, Florença.
O estilo do artista pode ser vislumbrado por meio de sutilezas que escapam as generalizações mais gerais, elencando uma série de artistas clássicos ele ressalta os detalhes que vão para além da técnica e da iconologia da época. A natureza não seria representada sem uma pitada de particularidade de cada autor. Por meio da análise de imagens ele confirma suas teses, sempre apoiado em obras clássicas.  Um mesmo modelo de natureza seria capaz de revelar infinitos estilos particulares, assim o olhar e a paixão de cada artista traria um caráter de singularidade a obra.


Fra Angelico: Anunciação, c. 1440. Museu Nacional de São Marcos, Florença
Segundo ele há uma “visão especial do pintor que se expressa através das suas obras” (Wolfflin, 2001. p. 4). O humor do artista é encarado como participante no processo de criação, assim atuando lado a lado com a técnica empregada. Ao lado do estilo pessoal que seria aquele singular de cada artista é possível localizar também o estilo de uma escola, país ou povo. Vale ressaltar que esses diferentes estilos se alocam na obra de forma  harmônica, não se contrapõe, todos os estilos presentes são importantes para a totalidade da obra.
Rembrandt: Lição de anatomia do Dr. Tulp, 1632. Mauritshuis, Haia.

Wolffin reconhece um dos principais problemas dos seu esquema, a adequação ao modelo é primordial, assim são consideradas apenas as premissas generalizadoras, já que no modelo só cabe algumas caracteristicas gerais.  Ele mesmo diz que, sem a possibilidade de generalização essas considerações não teriam valor (Wolfflin, 2001, p. 10). Ele dá exemplos em que são apresentados três tipos de estilos, e todos eles tem em comum a característica da EXPRESSÃO, seja ela individual, de uma época ou de uma nação.  
A originalidade de sua concepção de Renascimento e Barroco se dá pelo fato de que ele não busca dar primazia à um ou outro. Ele reconhece que ambos tem suas especificidades e um não decorre do progresso ou degeneração do outro. Ele nos diz:

[...] o importante não é mostrar a diferença entre os dois, e sim explicar como ambos, tendo percorrido caminhos diferentes conseguiram legar à humanidade uma arte grandiosa. (Wolffin, 2001, p. 14)

O estudo dele se voltará então para formulação das formas gerais da representação. Essas formas seriam o elemento a partir do qual a beleza ganhou forma. Assim ele já distancia suas premissas de escritos estéticos, já que essa não é focada na beleza e sim nos elementos de sua forma. A arte recente qual ele busca essas categorias para “legitima-lá” é o barroco, pois é no período que ele redige seu texto que o barroco vem ganhando espaço e deixando se ser mera decadência do renascimento.  O autor se posiciona então contra a concepção até então vigente de Eclosão/Apogeu/Decadência, legando a esta apenas um lugar secundário e desprezível.
Parmigianino: Madonna do pescoço longo, 1534-40. Uffizi.

Após essas premissas iniciais ele afirma que o barroco não é decadência nem aperfeiçoamento do renascimento, o barroco é uma arte totalmente diferente. Assim ele distancia o barroco do renascimento, para então dar um lugar próprio ao estilo na História da Arte. Ao colocar o barroco lado a lado com o renascimento como um estilo único ele pode comparar os dois sem sobrepor um ao outro, como era comum na historiografia anterior a ele.
Ele aplica então pares opositivos, aos quais reduz a alguns conceitos ao seu ver fundamentais da história da arte. Esses pares de conceitos são cinco e se dividem em:
Linear e pictórico;
O linear clássico se ligaria ao contorno bem delineado das formas, podemos definir onde cada figura começa e termina sem problemas. É possível “recortar” cada forma com uma tesoura mental. No pictórico barroco a imagem parece não ter limites, são pouco claras em questão aos contornos das formas, assim a sua separação de elementos é desfocada.  Segundo ele “No primeiro caso o interesse esta na percepção de cada um dos objetos materiais como corpos sólidos, tangíveis; no segundo, na apreensão do mundo como uma imagem oscilante.” (Wolffin, 2001, p. 19).
Plano e profundidade;
Na arte clássica uma imagem tem sua forma criada a partir de uma sobreposição de planos, que quando colocados em sequência formam a integração total da composição. O plano é elemento da linha, linhas bem delineadas originam planos bem definidos. Já a arte barroca prioriza a profundidade. Os olhos relacionam os objetos sem uma justaposição, isso é inerente a desvalorização dos contornos, já que este desvaloriza consigo os planos, assim o olhar não define a imagem em planos justapostos. Isso não é qualitativo, é outro tipo de enfoque que não prioriza tais premissas. São representações radicalmente distantes.   
Retrato de Luca Pacioli, 1445–1517.  Gallerie di Capodimonte.

Unidade e pluralidade;
A forma clássica preza pelo delineamento dos limites, impondo uma autonomia das partes compositórias do todo. Assim é possível uma análise singular de cada elemento, embora ele seja parte de uma composição. Em uma pintura barroca existe um todo, não apenas um todo, mas o TODO. Cada elemento se encadeia com o seguinte, e como nos dois conceitos iniciais o foco é castrador na relação com a arte barroca. A pintura barroca só nos oferece a possibilidade de contemplação de todos os elementos pictóricos junto, ao isolar há apenas perda. Sendo assim o clássico seria plural e o barroco uno.
Forma fechada e forma aberta;
O desenho clássico é fechado, sempre revelando o inicio e o fim de cada tema. O barroco não é fechado tanto quanto o clássico. Toda a obra deve ser um todo fechado segundo Wolffin, o barroco possui uma forma imprecisa, não tão finita quanto à clássica.


Clareza absoluta e relativa
No barroco não há intenção de apresentar a forma em sua totalidade, se oferece pontos de apoio, desta forma composição, luz e cor não são submetidos a forma como na arte clássica, mas possuem assim uma vivacidade que permite uma vida própria a tais elementos e não a subordinação à forma. A clareza absoluta guia a obra clássica, assim revelando e delineando todos os cantos e detalhes. Já o barroco nos propõe uma névoa perceptiva.
A Coroação de Cristo, Van Dyck, 1620, Flandres, exposto em Madrid.
É fácil perceber a proximidade dos pares de conceitos de wolffin, eles agem em conjunto, são pares complementares, em que a compreensão clara de um par ajuda a compreender o próximo. Há falhas no seu modelo, é esperado isso, já que geralmente nas ciências humanas sempre que um autor se propõe a formular leis gerais acerca de algo haverá falhas. Sua intenção é propor uma história científica da arte, assim é óbvio que ele seguiria a tradição cientificista de seus contemporâneos do fim do século XIX. Categorizar, propor leis, comparar, classificar são palavras de ordem da intelectualidade de tal período.
Muito além de estabelecer um juízo sobre os conceitos wolffinianos buscamos apenas compreender sua proposta. Sua obra é um clássico que foi retomado em vários momentos posteriores da História da Arte. A leitura de tal obra se torna fundamental, já que seus conceitos são importantes e serviram para muitas reflexões sobre a arte. O barroco tem seu lugar de destaque entre estilos graças a empreitada de wolffin.  

Agora que elucidamos algumas questões referentes as formas gerais da representação sugiro que observe as obras desde o início do post e busque utilizar alguns pares dos conceitos. Dessa forma fica perceptível a aplicabilidade de tais modelos e a importância de Wolffin para a História da Arte.

Greenberg e Pollock: Palavra & Ação

Clement Greenberg ( 1909 –  1994)


Clement Greenberg foi um influente crítico de arte dos Estados Unidos, tido por alguns como o mais importante crítico de arte do século XX. Sua trajetória se funde com a de Jackson Pollock (1912 —1956) e a do expressionismo abstrato. Greemberg sempre carregará consigo o nome de Pollock e vice versa, já que “descobriu” tal artista em sua segunda exposição individual. No Brasil foram publicados dois livros primordiais para a compreensão de tal autor.


1- GREENBERG, Clement. Ensaios Críticos. São Paulo:  Cosac Naify, 2013. Publicado originalmente em 1961, Arte e cultura é a única coletânea de ensaios organizada por seu autor, Dividido em cinco partes, que abordam a relação entre arte e sociedade, literatura e, principalmente, a produção e o legado de artistas modernos e contemporâneos centrais, o livro contém alguns dos textos que deram fama a Greenberg, como “Vanguarda e kitsch” e “Pintura de ‘tipo americano’”.
2- COTRIM, C. FERREIRA, G. Clement Greenberg e o debate crítico. São Paulo: Zahar Editor, 1997. O livro é dividido em duas partes - a primeira reunindo os textos mais representativos de Greenberg, a segunda trazendo uma seleção dos mais relevantes ensaios sobre sua obra.


Greemberg estudou na Universidade de Siracusa, onde se graduou em letras, em 1939 publicou seu primeiro ensaio, Avant-Garde and Kitsch, que atraiu muita atenção ao declarar que o Modernismo era uma forma de combater o rebaixamento cultural causado pela propaganda capitalista. O ensaio também foi uma resposta à destruição da chamada arte degenerada pelos nazistas. Não obteve muito êxito nos escritos teóricos, atuou como editor da revista Comentary  por mais de treze anos, onde alcançou grande reconhecimento. Autoditada inaugurou um campo quase inexistente nos EUA, sua crítica alçou vôo de grandes artistas.
Crítico inicialmente com posições de esquerda segue o caminho de muitos intelectuais brasileiros, que com o aumento da fama vão tendendo à posições conservadoras. Sua produção principal foi redigida até os anos 60. Grande parte justifica a diminuição de seu alcance devido o seu receio com o pós-modernismo. Talvez um dos maiores críticos do século XX tenha caído em descrédito devido ao seu dogmatismo em relação a arte contemporânea  a si.
Acredito que esse detalhe é complexo na vida de um crítico, já que durante a sua carreira ele é obrigado a se pautar em algumas verdades, e sobre elas constrói um edifício dogmático. O reconhecimento da necessidade de aperfeiçoamento é talvez a única saída contra a obsolescência da crítica. Não que ele tenha que em algum ponto abrir mão de suas opiniões, modificar partes chaves do seu pensamento, apenas que o alerta se deve ao fato de não se fechar para as novidades e mudanças em um campo tão mutável quanto o da arte localizada temporalmente.
Embora possamos encarar a crítica como algo temporal e social, não tendendo ao eterno. A obra pode ser atemporal, mas sua critica sempre será localizada geograficamente e temporalmente. Ainda lemos os clássicos, eles sempre terão algo a nos dizer, porém a potencialidade de tal discurso só se faz integral em sua época e local. Não apreendemos a totalidade da crítica, nem mesmo da obra.  A obra porém é dotada de uma atemporalidade, que sempre a realoca no tempo presente, a crítica por sua vez pode se tornar obsoleta.
Abandonando devaneios vamos voltar a falar sobre Greemberg. Mesmo com um “modelo” ultrapassado Greenberg conquistou seu lugar na cultura internacional, e passou grande parte da vida em conferências e exposições ao redor do mundo. Embora nos últimos dez anos de sua vida não tenha publicado nada. Talvez seja o reconhecimento do esgotamento de suas chaves ou apenas a adesão ao descanso. Esse fim não importa, apenas falar sobre ele já parece uma imposição da lógica intelectual produtiva de nossa época.
Em 1945 aos 33 anos Greemberg escreve uma crítica sobre Pollock, e esse passa a ser considerado por ele “o mais forte pintor de sua geração”. [Pollock nasceu em 28 de Janeiro de 1912. Homem de personalidade volátil e tendo vários problemas com o alcoolismo. Desenvolveu uma técnica de pintura, criada por Max Ernst, o 'dripping' (gotejamento), na qual respingava a tinta sobre suas imensas telas; os pingos escorriam formando traços harmoniosos e pareciam entrelaçar-se na superfície da tela. Pintava com a tela colocada no chão para sentir-se dentro do quadro. Pollock parte do zero, do pingo de tinta que deixa cair na tela elabora uma obra de arte. Além de deixar de lado o cavalete, Pollock também não usa mais pincéis.


A arte de Pollock combina a simplicidade com a pintura pura e suas obras de maiores dimensões possuem características monumentais. Com Pollock, há o auge da pintura de ação (action painting). A tensão ético-religiosa por ele vivida o impele aos pintores da Revolução mexicana. Sua esfera da arte é o inconsciente: seus signos são um prolongamento do seu interior. Apesar de ter seu trabalho reconhecido e com exposições por vários países do mundo, Pollock nunca saiu dos Estados Unidos. Morreu em um acidente de carro em 11 de agosto de 1956. (Wikipédia)].

  Em 2000 foi lançado um filme bibliográfico dirigido e protagonizado por Ed Harris, que se preparou 10 anos para o papel e obteve duas indicações ao Oscar, uma delas na categoria de melhor ator. A sinopse é:

Em agosto de 1949, a revista Life publicou em sua capa uma manchete dizendo: "Jackson Pollock: Será ele o maior artista vivo dos Estados Unidos?". Já conhecido no mundo da arte de Nova York, Pollock agora passava a ser conhecido nacionalmente como a primeira celebridade americana no mundo das artes plásticas e seu estilo corajoso e radical de pintura ditava os rumos da arte moderna. Mas os tormentos que atingiam Pollock em toda sua vida e que o ajudaram no início de carreira a criar sua arte original começaram a afligí-lo cada vez mais. Lutando contra si mesmo, Pollock entrou então numa espiral decadente que fez com que destruísse seu casamento, sua promissora carreira e sua própria vida.



Curioso como inicialmente um crítico formalista com tendências conservadoras admire um trabalho que de inicio pareça nada clássico. Porém ai se revela uma dos maiores trunfos de Greenberg frente a outros críticos de sua época, ele era original na medida em que analisava e escrevia sobre aquilo que era interiormente tocado, assim era envolvido pelo seu fluir. O espaço pictórico perde seu interior, porém onde alguns só viam perdas ele viu o ganho, a explosão em direção ao expectador. A primazia da forma sobre a matéria, o pictórico para além da base material.
O expressionismo abstrato foi o primeiro movimento especificamente americano que alcançou notoriedade mundial, e junto com a eclosão de tal movimento veio o reconhecimento de  Greenberg e Pollock. Uma outra curiosidade é o fato de Pollock ter sido aluno de Diego Riviera, assim sendo de grande importância para ele a base dos muralistas revolucionários mexicanos.  Uma análise mais detalhada pode estabelecer relações entre esse fundo comum. Há tendências de esquerdas no primeiro Greenberg e influências em Pollock. Resta nos saber se a politica teve algum papel mais fundamental na vida de ambos. Isso até o presente momento não saberia responder, mas fica anotado conosco a título de curiosidade e quem sabe possíveis desdobramentos para pesquisas futuras.

5.05.2015

Ficção Científica e a Ascenção dos Romances Planetários

Acredito que o cinema comercial americano entrou em uma nova fase. A primeira década do século XXI nos presenteou com as mais diversas maravilhas tecnológicas, claro que não entraremos aqui na discussão do acesso a tais tecnologias, porém é inegável que mesmo que grande parte da população não possua muitas das “maravilhas” tecnológicas, ao menos sabem como é seu funcionamento básico.  O cinema teve uma fase aurea da Ficção Cientifica focada em Inteligência Artificial como O Homem Bicentenário (1999), A.I. (2001) e Eu Robô (2004), alcançando assim grandes sucessos de bilheteria nas últimas décadas, porém defendo uma tese de que nos últimos anos o interesse do grande público vem diminuindo na medida em que esse enredo não é mais tão ficcional como aparenta. Por questões metodológicas dividiremos os filmes de ficção cientifica em  dois subgêneros, embora essa classificação seja muito tênue, nossa divisão consistirá em Filmes de Ficção Cientifica baseados na Inteligência artificial, e os romances planetários que são uma fantasia científica que consiste em aventuras em um ou mais planetas exóticos, caracterizados por cenários físicos e culturais distintos. Embora nos Romances planetários exista a presença de Inteligência Artificial a trama não gira em torno dela.
Tivemos nos últimos dois anos grandes produções, mas o investimento não alcançou a popularidade esperada por tamanha empreitada. Podemos usar como exemplo, Transcendence (2014) estrelado por Johnny Depp que foi um dos poucos que exploraram de forma interessante a temática, porém com um final fraco, sendo ofuscado por I Origins (2014) de Mike Cahill. A última produção que chegou a obter grande êxito foi Her (2013) de Spike Jonze, que chegou a concorrer ao Oscar de Melhor filme, e confesso aqui que era meu preferido, levou consigo o Oscar de melhor roteiro, um dos principais prêmios, dado a um roteiro  baseado em Inteligência Artificial Forte. Porém sua excelência ao meu ver foi explorar as relações humanas, a Inteligência Artificial não foi a questão que guiava o filme, mesmo o entorno da questão sendo a Samantha.

Her é apoiado em questões humanas de relacionamento e solidão. Dessa forma o roteiro brilhante se apoiava apenas na interpretação de Joaquin Phoenix e de Scarlett Johansson, que não utilizou seu belo rosto para um dos seus melhores papéis. Efeitos especiais são quase inexistentes, e o cenário é magnifico.
Mas vamos nos voltar a minha questão central, meu interesse aqui é ressaltar o declínio que tal enredo está enfrentando, que vai além das péssimas escolhas de produtores e diretores. Por outro lado os romances planetários como, Gravidade (2013) e Interestellar (2014) alcançaram grande sucesso, seguindo o Avatar (2009), que tem uma aguardada sequência sendo produzida para 2017. A inteligência artificial vem perdendo espaço para os romances planetários.
Não estou entrando em méritos históricos, devido a isso não vou discutir filmes clássicos embora ache que para uma análise mais rigorosa seja fundamental, porém esse não é meu objetivo aqui, quero apenas lançar luz para algumas questões.
A inteligência artificial vem perdendo público, talvez não por uma má administração das produtoras, o próprio público pode estar mudando, já que quem busca filmes de tecnologia quer algo para além da realidade já dada. Entre uma inteligência artificial não tão ir(real) e explorações planetárias, a segunda opção pode parecer mais atraente segundo a sua distancia da realidade do expectador. Nos próximos anos acredito eu que surgirão cada vez mais filmes baseados em explorações planetárias do que os puramente baseados em Inteligência Artificial. Esta que se diluirá cada vez mais nos filmes de romances planetários, deixando de ter um papel central.
Aguardemos para ver o que acontecerá nos próximos anos. Essa questão ainda poderá ser muito analisada pelos cinéfilos e teóricos do cinema.  Apenas o tempo poderá nos mostrar qual caminho será trilhado pelo cinema comercial mundial. Porém toda minha reflexão se iniciou na com base no filme O Destino de Júpiter (2015).
Matrix (1999) é uma ficção cientifica que foi dirigida pelos irmaõs Wachowski, foi um sucesso de público e crítica, porém suas sequências não caíram muito ao gosto do público, porém o sucesso marcou a carreira de todos envolvidos no projeto e até hoje é um marco do cinema das últimas décadas.
Agora imaginem uma receita culinária onde você tem ótimos ingredientes e um bom cozinheiro.  Ainda assim não é garantido que o resultado seja um prato de sucesso. Foi algo similar ao que aconteceu com os irmaõs Wachowski em O Destino de Júpiter.  O declínio criativo dos irmãos já vinha sendo anunciado desde A Viagem (2012), onde Tom Hanks e Halle Berry não conseguem salvar a trama.
O elenco de O Destino de Júpiter traz Mila Kunis que teve uma ótima performance em Cisne Negro (2010), Eddie Redmayne com seu recente Oscar de melhor ator pela Teoria de Tudo (2014), Tuppence Middleton de O jogo da Imitação (2014).
Poster de O Destino de Júpiter.
 Channing Tatum embora não traga grandes atuações no currículo se esforçou para salvar o filme, porém com o roteiro disponível, nem mesmo Meryl Streep poderia fazer muita coisa.
Voltando a referência da receita em O Destino de Júpiter parece aquela massa do Spoletto, onde juntamos muitos ingredientes bons e o resultado é desanimador. O valor gasto pelas produtoras em tal mistura foi de aproximadamente $ 176.000.000,00 e no final de semana de sua abertura obteve pouco mais de  $ 18.000.000,00.
Os personagens são fracos, sem profundidade e ingênuos. A protagonista após reinvidicar seu título de “Dona da terra” (sic!), aceita em poucas horas casar-se com seu filho, mesmo estando claro que existem diversas conspirações a sua volta. O 3D deixou grandes marcas no filme, já que a versão 2D tem repetitivas cenas  em slow motion. A protagonista é salva várias vezes de uma queda livre, sempre no último minuto e por um soldado geneticamente modificado, hibrido de lobo e homem.  
A produção deve ser mais atenta enquanto a execução de alguns projetos. O gênero romance planetário deve ser amplamente debatido, assim evitando que caia em desgraça. O expectador deve ser encarado como um agente critico, e não apenas como público comedor de pipoca. Os roteiros devem ser a peça primordial que guie a cena, e os efeitos especiais não devem se sobrepor a trama.
O problema dos irmaõs Wachowski foi menosprezar a capacidade de intelecção do público, achando que apenas aderindo a um sub-gênero em ascenção como o romance planetário estariam em direção a um grande épico interplanetário. A fotografia do filme é o único ponto positivo, devido as belas e futuristas locações. Esse ponto é fundamental para a compreensão da ânsia de sucesso dos irmãos, onde a ambição fica clara na amplitude das cenas. O triste é que de encontro com a imensidão das locações é a imensidão do fracasso já anunciado de tal franquia. 

Die Antwoord é uma banda sul-africana de rap-rave
 cujo estilo é inspirado em Roger Ballen, e a cultura Zef . 
Vamos aguardar Chappie (2015) de Neill Blomkamp, talvez ele consiga repetir o feito de Distrito 9 (2009). A estréia do grupo sul-Africano de rap-rave, Die Antwoord no cinema é uma grande promessa, já que o trabalho do grupo é expresso por clipes bem produzidos que alcançam milhares de acessos no youtube.

5.01.2015

Resenha: Barroco, Esplendor e Naturalidade.


Ernst Hans Josef Gombrich (1909 — 2001) foi um dos mais célebres historiadores da arte do século XX, especialmente por seus estudos sobre o renascimento. A História da Arte, publicado pela primeira vez em 1950 em Londres e é um dos livros mais adotados em cursos de História da Arte ao redor do mundo. Aqui no Brasil está em sua 16° edição pela editora LTC. O autor já foi feito Membro do Império Britânico em 1966, cavaleiro em 1972, e membro da Ordem do Mérito em 1988 e agraciado com muitas outras honrarias.

Originalmente dirigido para leitores adolescentes A História da Arte vendeu milhões das cópias e foi traduzido em mais de 30 línguas. O livro então tornou-­se referência no campo da História e Crítica de Arte. Entre seus diversos capítulos existem dois que discorrem sobre o tema do Barroco, sendo leitura primordial para os interessados no tema, o capítulo dezenove intitulado “Visão e Visões: Europa Católica, Primeira Metade do Século XVII”, e o vinte e um denominado: “Poder e Glória 1: Itália, Final do Século XVII e Século XVIII”.

Esses dois capítulos apresentam muitos dos conceitos que utilizamos hoje para compreender o Barroco, período tão dúbio e que nas palavras do próprio autor “não é nada simples de identificar” (GOMBRICH, 2000, p.268). A palavra barroco era um termo pejorativo em sua época, como Gombrich nos diz no trecho a seguir:

A palavra "barroco" foi um termo empregado pelos críticos de um período ulterior que lutavam contra as tendências seiscentistas e queriam expô­las ao ridículo. Barroco significa realmente absurdo ou grotesco, e era empregado por homens que insistiam em que as formas das construções clássicas jamais deveriam ser usadas ou combinadas a não ser do modo adotado pelos gregos e romanos. Desprezar as severas normas da arquitetura antiga parecia, a esses críticos, uma deplorável falta de gosto — daí terem rotulado o estilo de barroco. (Idem, Ibid.)

O capítulo dezenove então vai nos apresentar o conceito básico do que seria o Barroco, reccorendo a noções e obras do fim do século XVI e início do XVII. O Barroco se opõe ao idealismo renascentista e visa encontrar as formas naturais como se apresentam ao olhar. Tem como ênfase a luz e a cor, optando ainda pela utilização de composições mais complexas. O autor vai citar diversos artistas que são referência em arte barroca, como Caravaggio e Velásquez, entre outros. Caravaggio pintou os discípulos com aspecto de trabalhadores comuns, sendo condenado de naturalista, de fato ele o era, os discípulos eram trabalhadores comuns. Velásquez vai transformar os retratos em pinturas impressionantes, fixando o real muito antes da invenção da máquina fotográfica.

O capítulo vinte e um dará um recorte maior, focando na arquitetura Barroca do século XVIII onde o Barroco já estava plenamente desenvolvido. Os edifícios barrocos são super ornamentados e teatrais, as igrejas ganham um ar festivo, com esplendor e movimento. É interessante ver as duas vertentes contrárias, onde os protestantes pregavam contra a ostentação e a igreja católica romana recrutava cada vez mais o poder dos artistas. O conjunto possui efeitos cênicos, o grupo de elementos sempre visam a emoção. A escultura por sua vez também é explicitada, e o capítulo traz exemplos clássicos da intensidade das expressões barrocas. Segundo Gombrich há uma “intensidade da expressão facial jamais tentada na arte” (Idem, p.306), isso pode ser atestado com as imagens que acompanham o texto. No século XVIII os artistas eram encarados como exímios decoradores de

A leitura da obra insere o leitor nas discussões mais importantes da história da arte barroca, sendo uma ótima introdução sobre o tema, relacionando o aspecto histórico e social do período, apresentando os mais importantes artistas, obras, técnicas e diferenciações. A crítica de arte tem ai uma ótima fonte para poder relacionar o barroco com outros períodos e ainda conhecer seus maiores nomes para futuras pesquisas. Para entender os períodos subsequentes na história da arte é imprescindível compreender as descobertas e mudanças ocasionadas pela arte barroca italiana, sendo assim necessário a leitura da obra de Gombrich.

GOMBRICH, Ernst, Hans.“Visão e Visões: Europa Católica, Primeira Metade do Século XVII” in: A História da Arte. (16° Ed. ) São Paulo: Editora LTC, 2000.

__________. “Poder e Glória 1: Itália, Final do Século XVII e Século XVIII”in: A História da Arte. (16° Ed. ) São Paulo: Editora LTC, 2000.

Eva Klabin, Colecionismo e Singularidade.

Eva Klabin (1903 - 1991) criou no Rio de Janeiro uma fundação para conservar, pesquisar e expor ao público sua coleção.
Na Av. Epitácio Pessoa, 2480 na Lagoa encontra-se a Fundação Eva Klabin (FEK), fundação esta que reune um dos maiores acervos de arte clássica do país. A fundação leva o nome de sua genitora que foi uma conhecida agitadora cultural e colecionadora de artes do Rio de Janeiro. Filha de um dos fundadores da empresa que é atualmente a maior recicladora de papéis da América do Sul, a Klabin S.A. Empresa que em 2014 obteve o lucro de aproximados R$ 730 milhões.  
A fundação foi criada um ano antes da morte de sua criadora que morreu em 1991, ao longo da vida Eva Klabin se dedicou a obter itens para sua coleção. Hoje é tida como referência na história do colecionismo do Brasil. A casa que abrigou Eva durante grande parte de sua vida é aberta a visitação, onde é exposto grande parte de sua coleção.
Conhecer a fundação é uma experiência fantástica, desde a entrada até o final do circuito os olhos são preenchidos com objetos dos mais diversos períodos históricos. É possível uma viajem através da história por meio dos objetos materiais ali expostos, sendo esta uma coleção que abarca diversos período da história. O curioso é imaginar que alguém dedicou sua vida a essa missão de juntar peças valiosas e então morar conjuntamente com esses objetos. Podemos imaginar como deveria ser gratificante para a viúva Klabin perambular por entre os cômodos tendo uma parte da história da arte desvelada sobre si.
Dentre os diversos ambientes o que mais me chamou atenção foi o Quarto de Dormir. Sendo um espaço aparentemente modesto, porém ao meu ver foi capaz de revelar algo único, que poderia passar despercebido em outros ambientes. Dentre tantos objetos havia alguém! e essa figura pode ser resgatada com maiores detalhes em seu quarto. Talvez Eva seja uma das figuras mais importantes, já que para além dos objetos ali expostos houve uma figura central, que por meio de seus gostos e vivências particulares interessou-se por esses objetos e os trouxe para si, e hoje nos deixa de herança a possibilidade de vislumbra-los ali, bem no coração de nossa cidade, localizada no fim do Hemisfério Sul.

O quarto de dormir apresenta detalhes particulares, para além das fotografias que são expostas em outros ambientes da casa. A imaginação cria asas, e nos possibilita imaginar como deveria ser “viver na arte”, a realidade de Eva parece um conto de fadas, onde ela criou um mundo para si, e ali se refugiou. De seu portão para dentro ela provavelmente se sentia aconchegada, estando a poucos metros do mundo inteiro, tornando sua habitação um espaço aproximado do conceito de não lugar. Geograficamente localizada na cidade do Rio de Janeiro, porém os cômodos a sua volta respiravam humanidade. Todo um processo histórico testemunhado por meio dos objetos, a cultura material expressando e revelando aquilo que temos de mais valioso, nossa história enquanto humanos.
Neste quarto por décadas Eva pensou em que itens adquirir, quais leilões participar. Ela certamente chorou em seu travesseiro, e também sorriu antes de adormecer. Nesse quarto ela sonhava e viajava por outros mundos.  Essa figura humana e sensível se revela mais intensamente ali, no Quarto de Dormir. Suas preocupações e felicidades foram pensados e repensados naquele espaço. Embora o foco da visita seja o acervo, as impressões em torno da figura de Eva são muitas.
Uma casa museu revela algo além do colecionismo, é uma visita pessoal, já que ao mesmo tempo em que entramos em um museu entramos em uma casa, e dessa vez sem pedir licença. Sua dona partiu, mas nos abriu sua vida, suas aspirações e conquistas.
Deitada em sua imponente cama barroca Klabin encarava a obra de Giovanni Francesco Romanelli, um importante pintor do seiscento italiano que morreu em 1662. A cena retratada é a mais infantil e inocente possível, onde cinco crianças pescam no refugio do sossego infantil, onde o mundo se reduz a uma cena lúdica e sem preocupações. Essa obra foi escolhida para seu ambiente mais pessoal, onde passaria uma grande parte do tempo em que estaria em casa. Foi a obra que arrisco afirmar que mais foi percorrida pelos olhos da eximia colecionadora.
Isso talvez revele um pouco mais da personalidade daquela figura que tanto nos interessou e que venho tentando ressaltar desde o inicio do texto. Buscando não cair em psicologismos baratos, gosto da idéia de imaginar Eva como uma dessas crianças, que inocentemente dedicava sua vida a uma missão que muitos deveriam julgar inútil, tão lúdica como a cena apresentada em seu quarto.
E como uma criança que coleciona e se apega aos seus objetos Eva se dedicou a essa missão, colecionar história, juntar pedaços de vidas, narrativas, emoções. Não só essas mais muitas outras hipóteses podem ser formuladas por uma visita a FEK. O que nos importa é que o “hobby” que para muitos era uma infantilidade se revelou com o tempo uma das mais maduras tarefas, por meio dessa sua peculiariedade Eva consegui marcar seu nome na história da cidade do Rio de Janeiro, como uma das figuras marcantes que fizeram parte da história dessa cidade.
Aconselho a todos uma visita a Fundação Eva Klabin,  e aconselho a todos que no meio desta viagem não percam a mão que ajudou a tecer todo esse emaranhado de retalhos. Uma das artistas presente ali concebeu a maior obra de todas, e é nela que você está imerso ao entrar no número 2480 da Av. Epitácio Pessoa.
Links Úteis:

http://www.evaklabin.org.br/