5.17.2015

O Baile

Era uma bela noite de verão, a lua reluzia sobre a planíce que se revelava por uma pequena fresta da minha cortina, porém amarrada as regras da sociabilidade eu deveria estar no baile antes das onze e após às nove. O meu colar sumiu! Aposto que está com Eugénie, ela sempre usa minhas jóias em seus devaneios lúdicos, mas não estragarei minha noite, falarei com mamãe e ela castigá a pequena. Meu penteado está impecável e o baile promete entrar para a história. Nada irá atrapalhar minha noite. Já ouço a nona badalada do relógio, a carruagem está pronta e chegarei por volta das dez caso nada inesperado aconteça.

Saio apressada em direção a carruagem, está já foi preparada. Ao entrar senti uma sensação estranha, não sei explicar, apenas sinto que algo não está no seu ritmo normal. O trajeto foi rápido, e a sensação estranha ainda permanece,  não senti um solavanco na viagem. Posso jurar que o caminho foi o mais retilíneo possível, as próprias curvas foram imperceptíveis.

A porta da carruagem é aberta, as luzes me atraem, eu subo as escadas com a sensação de que a maior noite da minha vida me aguarda. Ao olhar para trás do alto da escada vejo algo irreal, a carruagem não é puxada por cavalos. O local onde eles deveriam estar encontra-se vazio. Fecho os olhos, e peço à todas as forças do universo que revele a realidade, porém ao abrir os olhos a carruagem continua sem cavalos. O que houve? Estou louca ou a carruagem veio puxada por Harpias?

Não posso pensar nisso agora, é irreal! Não há outra possibilidade. Embora a sensação esteja clara agora, senti falta dos buracos da estrada, senti falta do barulho dos animais. O mais absoluto silêncio me acompanhou todo o tempo, o mundo perdeu sua sonoridade. Atarefada com os preparativos conversei comigo mesma todo o tempo e nem me dei conta.

O que fazer? grito e exprimo meu desespero e loucura ? ou sigo as escadas e finjo que nada aconteceu? Vou subir e pedir ajuda, aliás já estou divagando no meio da escada há alguns segundos. Subirei e peço ajuda, não devo estar muito bem. Não! Nada estragará minha noite, aposto que isso é alguma perturbação passageira, basta sentar-me um pouco que minha orientação voltará.

O salão de festas que se revelou aos meus olhos foi o mais magnifico possível, a ornamentação massageava meus olhos, os lustres podiam sustentar fadas que admiravam a beleza da cena. Sentei no canto do salão buscando me recompor para me entregar a festa, não fui de encontro aos meus amigos, aposto que me aguardam. Hoje será a grande noite onde dançarei até meus pés suarem. Mas e o som? Os cavalos?

Vou apressada ao banheiro, lá na minha intimidade sento e com a cabeça apertada por entre as mãos busco resgatar aquela sanidade que me escapa. Ao abaixar a cabeça e pressionar minhas mãos contra ela sinto a realidade voltando ao seu normal. Aperto com mais força e vejo que estou recuperada, escuto um barulho e posso apostar que na possibilidade de fitar a carruagem veria os cavalos novamente em seus lugares.

Ao abrir os olhos um assombro. Não compreendia aquilo que estava diante de mim. Pouco a pouco fui relembrando de tudo. Não queria estar ali. O baile vai começar, a banda iria tocar agora.
Lágrimas……

"Encolhida colada a parede do jardim a paciente nº 42 chora sem parar. Suas crises de choro são constantes, mesmo com a mudança da medicação. O choro aumenta e ela começa a puxar seus próprios cabelos em meio a lamúrias incompreensíveis. Os enfermeiros a medicam e o sono chega tão pesado quanto uma pena. Seu peso é aliviado pelo semblante de paz que a invade. A amarram na maca, pois nunca se sabe como ela irá despertar."

Em meio aos seus delírios ninguém imagina que ela dançou a noite toda.



Adolph Menzel, Supper at the Ball, 1878.


5.16.2015

Wölffin, Conceitos e Arte.

Heirich Wölfflin (1864 - 1945) 
Heirich Wölfflin foi um escritor, filósofo, crítico e historiador da arte suíço. Sua formação se deu em Basileia, Munique e Berlim. Em Basileia foi aluno e discípulo de Jakob Burckhardt. Wölfflin foi um dos mais influentes historiadores da arte do século XX. Autor de livros consagrados, tais como publicados no Brasil:
A Arte Clássica. São Paulo: Martins Fontes, 1990.
Foi seu propósito dar relevo ao conteúdo artístico do classicismo italiano. A publicação da obra, em 1899, trouxe uma nova exigência de rigor metodológico e provocou a transformação dos estudos sobre a arte.
Conceitos Fundamentais da História da Arte.  São Paulo: Martins Editora, 2001.  (Publicado originalmente em 1915)
Com a publicação do livro, o autor conclui um trabalho de vários anos, inúmeras vezes recomeçado. Os pensamentos e reflexões esboçados cerca de trinta anos antes encontraram sua forma definitiva nesta obra amadurecida, verdadeiramente clássica. Teve início, então, prolongando-se através das décadas, o efeito direto das idéias de Wölfflin nas ciências e na opinião pública em geral. Os Conceitos Fundamentais influenciaram e determinaram decisivamente as ciências do espírito e toda a atividade artística.
Renascença e Barroco. Cidade (?): Editora Perspectiva, 2012.
Este livro trata-se de uma análise crítica que busca apreender a essência do processo estilístico que se operou naquele contexto. E os resultados obtidos por H. Wölfflin em Renascença e Barroco foram de tal ordem que não só se tornaram uma referência bibliográfica indispensável, como geraram conseqüências teóricas que estão na raiz de toda a discussão moderna sobre a estética e os fundamentos da arte renascentista e barroca. 
Proponho um exercício: As imagens que ilustram esse post devem ser observadas cuidadosamente, e após o fim da leitura nos comprometemos a voltar e observar novamente as imagens, mas nesse segundo olhar buscaremos observar as imagens buscando a presença dos pares conceituais apresentados. 
Uma de suas maiores obras é Conceitos Fundamentais da História da Arte. Ele inicia o livro tratando sobre a origem do “estilo”, e com base nisso ele vai elencando o que seria então o “estilo”, a “maneira” do artista. Simplificando o termo seria o substrato que se revela na obra conforme uma regra generalizada. Existiram então não apenas um estilo ligado a um movimento, época ou país e sim uma interposição de estilos, todos presentes na mesma obra.
Rubens: As consequências da guerra, 1637-38. Palazzo Pitti, Florença.
O estilo do artista pode ser vislumbrado por meio de sutilezas que escapam as generalizações mais gerais, elencando uma série de artistas clássicos ele ressalta os detalhes que vão para além da técnica e da iconologia da época. A natureza não seria representada sem uma pitada de particularidade de cada autor. Por meio da análise de imagens ele confirma suas teses, sempre apoiado em obras clássicas.  Um mesmo modelo de natureza seria capaz de revelar infinitos estilos particulares, assim o olhar e a paixão de cada artista traria um caráter de singularidade a obra.


Fra Angelico: Anunciação, c. 1440. Museu Nacional de São Marcos, Florença
Segundo ele há uma “visão especial do pintor que se expressa através das suas obras” (Wolfflin, 2001. p. 4). O humor do artista é encarado como participante no processo de criação, assim atuando lado a lado com a técnica empregada. Ao lado do estilo pessoal que seria aquele singular de cada artista é possível localizar também o estilo de uma escola, país ou povo. Vale ressaltar que esses diferentes estilos se alocam na obra de forma  harmônica, não se contrapõe, todos os estilos presentes são importantes para a totalidade da obra.
Rembrandt: Lição de anatomia do Dr. Tulp, 1632. Mauritshuis, Haia.

Wolffin reconhece um dos principais problemas dos seu esquema, a adequação ao modelo é primordial, assim são consideradas apenas as premissas generalizadoras, já que no modelo só cabe algumas caracteristicas gerais.  Ele mesmo diz que, sem a possibilidade de generalização essas considerações não teriam valor (Wolfflin, 2001, p. 10). Ele dá exemplos em que são apresentados três tipos de estilos, e todos eles tem em comum a característica da EXPRESSÃO, seja ela individual, de uma época ou de uma nação.  
A originalidade de sua concepção de Renascimento e Barroco se dá pelo fato de que ele não busca dar primazia à um ou outro. Ele reconhece que ambos tem suas especificidades e um não decorre do progresso ou degeneração do outro. Ele nos diz:

[...] o importante não é mostrar a diferença entre os dois, e sim explicar como ambos, tendo percorrido caminhos diferentes conseguiram legar à humanidade uma arte grandiosa. (Wolffin, 2001, p. 14)

O estudo dele se voltará então para formulação das formas gerais da representação. Essas formas seriam o elemento a partir do qual a beleza ganhou forma. Assim ele já distancia suas premissas de escritos estéticos, já que essa não é focada na beleza e sim nos elementos de sua forma. A arte recente qual ele busca essas categorias para “legitima-lá” é o barroco, pois é no período que ele redige seu texto que o barroco vem ganhando espaço e deixando se ser mera decadência do renascimento.  O autor se posiciona então contra a concepção até então vigente de Eclosão/Apogeu/Decadência, legando a esta apenas um lugar secundário e desprezível.
Parmigianino: Madonna do pescoço longo, 1534-40. Uffizi.

Após essas premissas iniciais ele afirma que o barroco não é decadência nem aperfeiçoamento do renascimento, o barroco é uma arte totalmente diferente. Assim ele distancia o barroco do renascimento, para então dar um lugar próprio ao estilo na História da Arte. Ao colocar o barroco lado a lado com o renascimento como um estilo único ele pode comparar os dois sem sobrepor um ao outro, como era comum na historiografia anterior a ele.
Ele aplica então pares opositivos, aos quais reduz a alguns conceitos ao seu ver fundamentais da história da arte. Esses pares de conceitos são cinco e se dividem em:
Linear e pictórico;
O linear clássico se ligaria ao contorno bem delineado das formas, podemos definir onde cada figura começa e termina sem problemas. É possível “recortar” cada forma com uma tesoura mental. No pictórico barroco a imagem parece não ter limites, são pouco claras em questão aos contornos das formas, assim a sua separação de elementos é desfocada.  Segundo ele “No primeiro caso o interesse esta na percepção de cada um dos objetos materiais como corpos sólidos, tangíveis; no segundo, na apreensão do mundo como uma imagem oscilante.” (Wolffin, 2001, p. 19).
Plano e profundidade;
Na arte clássica uma imagem tem sua forma criada a partir de uma sobreposição de planos, que quando colocados em sequência formam a integração total da composição. O plano é elemento da linha, linhas bem delineadas originam planos bem definidos. Já a arte barroca prioriza a profundidade. Os olhos relacionam os objetos sem uma justaposição, isso é inerente a desvalorização dos contornos, já que este desvaloriza consigo os planos, assim o olhar não define a imagem em planos justapostos. Isso não é qualitativo, é outro tipo de enfoque que não prioriza tais premissas. São representações radicalmente distantes.   
Retrato de Luca Pacioli, 1445–1517.  Gallerie di Capodimonte.

Unidade e pluralidade;
A forma clássica preza pelo delineamento dos limites, impondo uma autonomia das partes compositórias do todo. Assim é possível uma análise singular de cada elemento, embora ele seja parte de uma composição. Em uma pintura barroca existe um todo, não apenas um todo, mas o TODO. Cada elemento se encadeia com o seguinte, e como nos dois conceitos iniciais o foco é castrador na relação com a arte barroca. A pintura barroca só nos oferece a possibilidade de contemplação de todos os elementos pictóricos junto, ao isolar há apenas perda. Sendo assim o clássico seria plural e o barroco uno.
Forma fechada e forma aberta;
O desenho clássico é fechado, sempre revelando o inicio e o fim de cada tema. O barroco não é fechado tanto quanto o clássico. Toda a obra deve ser um todo fechado segundo Wolffin, o barroco possui uma forma imprecisa, não tão finita quanto à clássica.


Clareza absoluta e relativa
No barroco não há intenção de apresentar a forma em sua totalidade, se oferece pontos de apoio, desta forma composição, luz e cor não são submetidos a forma como na arte clássica, mas possuem assim uma vivacidade que permite uma vida própria a tais elementos e não a subordinação à forma. A clareza absoluta guia a obra clássica, assim revelando e delineando todos os cantos e detalhes. Já o barroco nos propõe uma névoa perceptiva.
A Coroação de Cristo, Van Dyck, 1620, Flandres, exposto em Madrid.
É fácil perceber a proximidade dos pares de conceitos de wolffin, eles agem em conjunto, são pares complementares, em que a compreensão clara de um par ajuda a compreender o próximo. Há falhas no seu modelo, é esperado isso, já que geralmente nas ciências humanas sempre que um autor se propõe a formular leis gerais acerca de algo haverá falhas. Sua intenção é propor uma história científica da arte, assim é óbvio que ele seguiria a tradição cientificista de seus contemporâneos do fim do século XIX. Categorizar, propor leis, comparar, classificar são palavras de ordem da intelectualidade de tal período.
Muito além de estabelecer um juízo sobre os conceitos wolffinianos buscamos apenas compreender sua proposta. Sua obra é um clássico que foi retomado em vários momentos posteriores da História da Arte. A leitura de tal obra se torna fundamental, já que seus conceitos são importantes e serviram para muitas reflexões sobre a arte. O barroco tem seu lugar de destaque entre estilos graças a empreitada de wolffin.  

Agora que elucidamos algumas questões referentes as formas gerais da representação sugiro que observe as obras desde o início do post e busque utilizar alguns pares dos conceitos. Dessa forma fica perceptível a aplicabilidade de tais modelos e a importância de Wolffin para a História da Arte.

Greenberg e Pollock: Palavra & Ação

Clement Greenberg ( 1909 –  1994)


Clement Greenberg foi um influente crítico de arte dos Estados Unidos, tido por alguns como o mais importante crítico de arte do século XX. Sua trajetória se funde com a de Jackson Pollock (1912 —1956) e a do expressionismo abstrato. Greemberg sempre carregará consigo o nome de Pollock e vice versa, já que “descobriu” tal artista em sua segunda exposição individual. No Brasil foram publicados dois livros primordiais para a compreensão de tal autor.


1- GREENBERG, Clement. Ensaios Críticos. São Paulo:  Cosac Naify, 2013. Publicado originalmente em 1961, Arte e cultura é a única coletânea de ensaios organizada por seu autor, Dividido em cinco partes, que abordam a relação entre arte e sociedade, literatura e, principalmente, a produção e o legado de artistas modernos e contemporâneos centrais, o livro contém alguns dos textos que deram fama a Greenberg, como “Vanguarda e kitsch” e “Pintura de ‘tipo americano’”.
2- COTRIM, C. FERREIRA, G. Clement Greenberg e o debate crítico. São Paulo: Zahar Editor, 1997. O livro é dividido em duas partes - a primeira reunindo os textos mais representativos de Greenberg, a segunda trazendo uma seleção dos mais relevantes ensaios sobre sua obra.


Greemberg estudou na Universidade de Siracusa, onde se graduou em letras, em 1939 publicou seu primeiro ensaio, Avant-Garde and Kitsch, que atraiu muita atenção ao declarar que o Modernismo era uma forma de combater o rebaixamento cultural causado pela propaganda capitalista. O ensaio também foi uma resposta à destruição da chamada arte degenerada pelos nazistas. Não obteve muito êxito nos escritos teóricos, atuou como editor da revista Comentary  por mais de treze anos, onde alcançou grande reconhecimento. Autoditada inaugurou um campo quase inexistente nos EUA, sua crítica alçou vôo de grandes artistas.
Crítico inicialmente com posições de esquerda segue o caminho de muitos intelectuais brasileiros, que com o aumento da fama vão tendendo à posições conservadoras. Sua produção principal foi redigida até os anos 60. Grande parte justifica a diminuição de seu alcance devido o seu receio com o pós-modernismo. Talvez um dos maiores críticos do século XX tenha caído em descrédito devido ao seu dogmatismo em relação a arte contemporânea  a si.
Acredito que esse detalhe é complexo na vida de um crítico, já que durante a sua carreira ele é obrigado a se pautar em algumas verdades, e sobre elas constrói um edifício dogmático. O reconhecimento da necessidade de aperfeiçoamento é talvez a única saída contra a obsolescência da crítica. Não que ele tenha que em algum ponto abrir mão de suas opiniões, modificar partes chaves do seu pensamento, apenas que o alerta se deve ao fato de não se fechar para as novidades e mudanças em um campo tão mutável quanto o da arte localizada temporalmente.
Embora possamos encarar a crítica como algo temporal e social, não tendendo ao eterno. A obra pode ser atemporal, mas sua critica sempre será localizada geograficamente e temporalmente. Ainda lemos os clássicos, eles sempre terão algo a nos dizer, porém a potencialidade de tal discurso só se faz integral em sua época e local. Não apreendemos a totalidade da crítica, nem mesmo da obra.  A obra porém é dotada de uma atemporalidade, que sempre a realoca no tempo presente, a crítica por sua vez pode se tornar obsoleta.
Abandonando devaneios vamos voltar a falar sobre Greemberg. Mesmo com um “modelo” ultrapassado Greenberg conquistou seu lugar na cultura internacional, e passou grande parte da vida em conferências e exposições ao redor do mundo. Embora nos últimos dez anos de sua vida não tenha publicado nada. Talvez seja o reconhecimento do esgotamento de suas chaves ou apenas a adesão ao descanso. Esse fim não importa, apenas falar sobre ele já parece uma imposição da lógica intelectual produtiva de nossa época.
Em 1945 aos 33 anos Greemberg escreve uma crítica sobre Pollock, e esse passa a ser considerado por ele “o mais forte pintor de sua geração”. [Pollock nasceu em 28 de Janeiro de 1912. Homem de personalidade volátil e tendo vários problemas com o alcoolismo. Desenvolveu uma técnica de pintura, criada por Max Ernst, o 'dripping' (gotejamento), na qual respingava a tinta sobre suas imensas telas; os pingos escorriam formando traços harmoniosos e pareciam entrelaçar-se na superfície da tela. Pintava com a tela colocada no chão para sentir-se dentro do quadro. Pollock parte do zero, do pingo de tinta que deixa cair na tela elabora uma obra de arte. Além de deixar de lado o cavalete, Pollock também não usa mais pincéis.


A arte de Pollock combina a simplicidade com a pintura pura e suas obras de maiores dimensões possuem características monumentais. Com Pollock, há o auge da pintura de ação (action painting). A tensão ético-religiosa por ele vivida o impele aos pintores da Revolução mexicana. Sua esfera da arte é o inconsciente: seus signos são um prolongamento do seu interior. Apesar de ter seu trabalho reconhecido e com exposições por vários países do mundo, Pollock nunca saiu dos Estados Unidos. Morreu em um acidente de carro em 11 de agosto de 1956. (Wikipédia)].

  Em 2000 foi lançado um filme bibliográfico dirigido e protagonizado por Ed Harris, que se preparou 10 anos para o papel e obteve duas indicações ao Oscar, uma delas na categoria de melhor ator. A sinopse é:

Em agosto de 1949, a revista Life publicou em sua capa uma manchete dizendo: "Jackson Pollock: Será ele o maior artista vivo dos Estados Unidos?". Já conhecido no mundo da arte de Nova York, Pollock agora passava a ser conhecido nacionalmente como a primeira celebridade americana no mundo das artes plásticas e seu estilo corajoso e radical de pintura ditava os rumos da arte moderna. Mas os tormentos que atingiam Pollock em toda sua vida e que o ajudaram no início de carreira a criar sua arte original começaram a afligí-lo cada vez mais. Lutando contra si mesmo, Pollock entrou então numa espiral decadente que fez com que destruísse seu casamento, sua promissora carreira e sua própria vida.



Curioso como inicialmente um crítico formalista com tendências conservadoras admire um trabalho que de inicio pareça nada clássico. Porém ai se revela uma dos maiores trunfos de Greenberg frente a outros críticos de sua época, ele era original na medida em que analisava e escrevia sobre aquilo que era interiormente tocado, assim era envolvido pelo seu fluir. O espaço pictórico perde seu interior, porém onde alguns só viam perdas ele viu o ganho, a explosão em direção ao expectador. A primazia da forma sobre a matéria, o pictórico para além da base material.
O expressionismo abstrato foi o primeiro movimento especificamente americano que alcançou notoriedade mundial, e junto com a eclosão de tal movimento veio o reconhecimento de  Greenberg e Pollock. Uma outra curiosidade é o fato de Pollock ter sido aluno de Diego Riviera, assim sendo de grande importância para ele a base dos muralistas revolucionários mexicanos.  Uma análise mais detalhada pode estabelecer relações entre esse fundo comum. Há tendências de esquerdas no primeiro Greenberg e influências em Pollock. Resta nos saber se a politica teve algum papel mais fundamental na vida de ambos. Isso até o presente momento não saberia responder, mas fica anotado conosco a título de curiosidade e quem sabe possíveis desdobramentos para pesquisas futuras.

5.08.2015

Vermes e Deuses: O sujeito atemporal.

Esta resenha pretende tratar do livro O Queijo e os Vermes de Carlo Ginzburg (1939), este foi um historiador italiano, conhecido como um dos pioneiros no estudo da micro-história. Estudou na Escola Normal Superior de Pisa, e em seguida no Instituto Warburg em Londres; lecionou em universidades como Harvard, Yale e Princeton. Cruzei meio sem querer com uma das obras de tal autor.
Carlo Ginzburg, historiador italiano.
Sou uma presa fácil para livros, me atraio por títulos, capas e afins. O título me pareceu curioso, e aproximando-me fiquei atônito com o subtítulo: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. Minha surpresa não parou por ai, já que este livro se revelou uma das melhores leituras que tive nos últimos anos. Desde a época que estudava filosofia me interessava pelos discursos do século XVIII, sempre chamando a atenção por seu confronto com forças sociais tão poderosas na época. Meu preferido foi o Marquês de Sade, que com toda sua ousadia desafiou diversas forças sociais e pagou um alto preço por isso. Agora me vejo arrebatado por uma fascinação talvez até maior que a exercida pelo Marquês.
No século XVIII posso citar inúmeros autores que munidos de coragem enfrentaram o poder do clero, o próprio Marquês que sempre cito pagou alto preço por desafiar forças politicas poderosas. Em o queijo e os vermes nos é apresentado Domenico Scandella,  também conhecido por Menocchio, este foi um moleiro  que nos é conhecido por meio do processo inquisitório que o condenou, nascido em 1532 teve a audácia e impeto de debater os dogmas da igreja católica com o próprio inquisidor.
O autor nos adverte várias vezes para não nos determos na singularidade de Menoccchio, ainda assim vou contra seu conselho e me apego a tal figura. Não consigo me desvencilhar dos personagens, ainda mais sendo um que teve uma vivência real admirável, ele era nas palavras do autor:
[...] só um moleiro autodidata. Sua vida transcorrera quase exclusivamente entre os muros da aldeia de Montereale. Não sabia grego nem latim (no máximo alguns fragmentos de orações); lera poucos livros, em geral por acaso. Desses, mastigara, triturara cada palavra. Ele os ruminava durante anos; durante anos palavras e frases fermentaram em sua cabeça (p.57).
A singularidade de tal homem se revela na medida em que ele séculos antes vai onde Jean Meslier, o padre ateu, apenas sonhou, o debate de ideias que o Marquês fazia por meio da sua pena Menocchio faz com saliva e suor. Interrogado, acoado, reage como uma fera ameaçada. As sua plena convicção em defender uma materialismo de fundo humanista o torna uma figura central para repensarmos o que foi a idade média.
A micro-história nasceu junto com o resgate da história de Menocchio, um novo gênero historiográfico foi iniciado focado nas temáticas ligadas ao cotidiano de comunidades específicas. Uma análise que utilize essa metodologia depende sempre de uma exploração exaustiva das fontes, possuindo uma descrição etnográfica e se preocupando sempre com uma narrativa histórica. Mesmo sendo diferenciada de uma narrativa literária, já que se apóia em fatos, Ginzburg consegue mesclar com grande originalidade os fatos históricos que fundamentam suas teses.
Nesse método é revelado uma vida singular, não apoiada em personagens históricos já com um papel pré-estabelecido. O comum passa então a ser alguém com algo a dizer, a multidão não dissolve mais o sujeito. O moleiro torna-se porta voz, seu discurso é analisado e esmiuçado na busca de aspectos que revelem as mais amplas questões. Com a micro-história uma nova vertente é apresentada à historiografia, assim as ferramentas e métodos para conhecimento do grande processo histórico dos qual fazemos parte se amplia.  
Menocchio falando sobre vermes e ontologia divina foi condenado a fogueira, defendendo suas ideias ele ansiava apenas debater claramente dogmas eclesiásticos e encontrou condenação e incompreensão. Hoje ele encontra-se como uma figura conhecida por muitos, indo muito além da vila em que viveu. A história nos resgata tal homem, e de forma atemporal nos apegamos e imaginamos como seria estar em tal lugar. O sujeito que tinha uma localização demarcada geograficamente e temporalmente vai além dessas categorias e o presentificamos aqui, através do nosso discurso.
Publicado originalmente em 1976 o livro foi um sucesso mundial e traduzido para várias línguas alcançou diversas edições. No Brasil foi publicado pela Companhia das letras em 1987, e hoje encontra-se em várias livrarias por um preço acessível em sua versão de bolso.

5.05.2015

Ficção Científica e a Ascenção dos Romances Planetários

Acredito que o cinema comercial americano entrou em uma nova fase. A primeira década do século XXI nos presenteou com as mais diversas maravilhas tecnológicas, claro que não entraremos aqui na discussão do acesso a tais tecnologias, porém é inegável que mesmo que grande parte da população não possua muitas das “maravilhas” tecnológicas, ao menos sabem como é seu funcionamento básico.  O cinema teve uma fase aurea da Ficção Cientifica focada em Inteligência Artificial como O Homem Bicentenário (1999), A.I. (2001) e Eu Robô (2004), alcançando assim grandes sucessos de bilheteria nas últimas décadas, porém defendo uma tese de que nos últimos anos o interesse do grande público vem diminuindo na medida em que esse enredo não é mais tão ficcional como aparenta. Por questões metodológicas dividiremos os filmes de ficção cientifica em  dois subgêneros, embora essa classificação seja muito tênue, nossa divisão consistirá em Filmes de Ficção Cientifica baseados na Inteligência artificial, e os romances planetários que são uma fantasia científica que consiste em aventuras em um ou mais planetas exóticos, caracterizados por cenários físicos e culturais distintos. Embora nos Romances planetários exista a presença de Inteligência Artificial a trama não gira em torno dela.
Tivemos nos últimos dois anos grandes produções, mas o investimento não alcançou a popularidade esperada por tamanha empreitada. Podemos usar como exemplo, Transcendence (2014) estrelado por Johnny Depp que foi um dos poucos que exploraram de forma interessante a temática, porém com um final fraco, sendo ofuscado por I Origins (2014) de Mike Cahill. A última produção que chegou a obter grande êxito foi Her (2013) de Spike Jonze, que chegou a concorrer ao Oscar de Melhor filme, e confesso aqui que era meu preferido, levou consigo o Oscar de melhor roteiro, um dos principais prêmios, dado a um roteiro  baseado em Inteligência Artificial Forte. Porém sua excelência ao meu ver foi explorar as relações humanas, a Inteligência Artificial não foi a questão que guiava o filme, mesmo o entorno da questão sendo a Samantha.

Her é apoiado em questões humanas de relacionamento e solidão. Dessa forma o roteiro brilhante se apoiava apenas na interpretação de Joaquin Phoenix e de Scarlett Johansson, que não utilizou seu belo rosto para um dos seus melhores papéis. Efeitos especiais são quase inexistentes, e o cenário é magnifico.
Mas vamos nos voltar a minha questão central, meu interesse aqui é ressaltar o declínio que tal enredo está enfrentando, que vai além das péssimas escolhas de produtores e diretores. Por outro lado os romances planetários como, Gravidade (2013) e Interestellar (2014) alcançaram grande sucesso, seguindo o Avatar (2009), que tem uma aguardada sequência sendo produzida para 2017. A inteligência artificial vem perdendo espaço para os romances planetários.
Não estou entrando em méritos históricos, devido a isso não vou discutir filmes clássicos embora ache que para uma análise mais rigorosa seja fundamental, porém esse não é meu objetivo aqui, quero apenas lançar luz para algumas questões.
A inteligência artificial vem perdendo público, talvez não por uma má administração das produtoras, o próprio público pode estar mudando, já que quem busca filmes de tecnologia quer algo para além da realidade já dada. Entre uma inteligência artificial não tão ir(real) e explorações planetárias, a segunda opção pode parecer mais atraente segundo a sua distancia da realidade do expectador. Nos próximos anos acredito eu que surgirão cada vez mais filmes baseados em explorações planetárias do que os puramente baseados em Inteligência Artificial. Esta que se diluirá cada vez mais nos filmes de romances planetários, deixando de ter um papel central.
Aguardemos para ver o que acontecerá nos próximos anos. Essa questão ainda poderá ser muito analisada pelos cinéfilos e teóricos do cinema.  Apenas o tempo poderá nos mostrar qual caminho será trilhado pelo cinema comercial mundial. Porém toda minha reflexão se iniciou na com base no filme O Destino de Júpiter (2015).
Matrix (1999) é uma ficção cientifica que foi dirigida pelos irmaõs Wachowski, foi um sucesso de público e crítica, porém suas sequências não caíram muito ao gosto do público, porém o sucesso marcou a carreira de todos envolvidos no projeto e até hoje é um marco do cinema das últimas décadas.
Agora imaginem uma receita culinária onde você tem ótimos ingredientes e um bom cozinheiro.  Ainda assim não é garantido que o resultado seja um prato de sucesso. Foi algo similar ao que aconteceu com os irmaõs Wachowski em O Destino de Júpiter.  O declínio criativo dos irmãos já vinha sendo anunciado desde A Viagem (2012), onde Tom Hanks e Halle Berry não conseguem salvar a trama.
O elenco de O Destino de Júpiter traz Mila Kunis que teve uma ótima performance em Cisne Negro (2010), Eddie Redmayne com seu recente Oscar de melhor ator pela Teoria de Tudo (2014), Tuppence Middleton de O jogo da Imitação (2014).
Poster de O Destino de Júpiter.
 Channing Tatum embora não traga grandes atuações no currículo se esforçou para salvar o filme, porém com o roteiro disponível, nem mesmo Meryl Streep poderia fazer muita coisa.
Voltando a referência da receita em O Destino de Júpiter parece aquela massa do Spoletto, onde juntamos muitos ingredientes bons e o resultado é desanimador. O valor gasto pelas produtoras em tal mistura foi de aproximadamente $ 176.000.000,00 e no final de semana de sua abertura obteve pouco mais de  $ 18.000.000,00.
Os personagens são fracos, sem profundidade e ingênuos. A protagonista após reinvidicar seu título de “Dona da terra” (sic!), aceita em poucas horas casar-se com seu filho, mesmo estando claro que existem diversas conspirações a sua volta. O 3D deixou grandes marcas no filme, já que a versão 2D tem repetitivas cenas  em slow motion. A protagonista é salva várias vezes de uma queda livre, sempre no último minuto e por um soldado geneticamente modificado, hibrido de lobo e homem.  
A produção deve ser mais atenta enquanto a execução de alguns projetos. O gênero romance planetário deve ser amplamente debatido, assim evitando que caia em desgraça. O expectador deve ser encarado como um agente critico, e não apenas como público comedor de pipoca. Os roteiros devem ser a peça primordial que guie a cena, e os efeitos especiais não devem se sobrepor a trama.
O problema dos irmaõs Wachowski foi menosprezar a capacidade de intelecção do público, achando que apenas aderindo a um sub-gênero em ascenção como o romance planetário estariam em direção a um grande épico interplanetário. A fotografia do filme é o único ponto positivo, devido as belas e futuristas locações. Esse ponto é fundamental para a compreensão da ânsia de sucesso dos irmãos, onde a ambição fica clara na amplitude das cenas. O triste é que de encontro com a imensidão das locações é a imensidão do fracasso já anunciado de tal franquia. 

Die Antwoord é uma banda sul-africana de rap-rave
 cujo estilo é inspirado em Roger Ballen, e a cultura Zef . 
Vamos aguardar Chappie (2015) de Neill Blomkamp, talvez ele consiga repetir o feito de Distrito 9 (2009). A estréia do grupo sul-Africano de rap-rave, Die Antwoord no cinema é uma grande promessa, já que o trabalho do grupo é expresso por clipes bem produzidos que alcançam milhares de acessos no youtube.